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Há cinco cabines no banheiro

Há cinco cabines no banheiro. Qual escolher, qual a menos usada?  A primeira é óbvia demais. Se a pessoa está apertada, mas ainda consegue pensar que talvez essa não seja a melhor opção, vai na segunda. A terceira, sem chance, é a do meio, a especial. A quarta, hum... um pouco mais original, mas e se mais gente quis ser original também? A última, a da parede, é mais escondida... minha favorita. Logo,a favorita de todo mundo. Fui na que estava livre, essa escola tem gente demais. 

Quando não se quer estar em lugar algum

Acho que vivemos nossos dias sem muita noção de que milhões de pessoas já passaram por cada coisinha pela qual nós já passamos. Muito provavelmente, até a experiência mais cabeluda que você já teve não foi algo que aconteceu pela primeira vez com alguém. No entanto, só nos damos conta disso quando topamos com uma expressão exata, seja uma fala, um registro escrito, ou qualquer outra coisa, de algo que já sentimos. Foi o que aconteceu numa recente aula de Literatura. Tudo o que eu queria fazer era ficar parada, ouvindo as músicas que me ajudam a criar lindas fantasias na minha cabeça, mas eu tinha que continuar fazendo o que deveria fazer.  Naquela aula, tantas partes da vida de outras pessoas, e as dores que as acompanharam, foram expostas e analisadas largamente, que eu percebi que mesmo sem poder permitir que a minha subjetividade se espalhasse para fora de mim, eu não estava me esquivando de nada do que sentia, eu sabia de tudo. Eu sabia que estava exausta, e como era frustrante...

Eu precisava falar sobre sensações

Nota:  Esse texto fica melhor quando lido como foi escrito (ouvindo "perfume", do Mehro). Eu não vou mentir, fazer de você a figura que me enche de vida quando eu mais preciso me causa uma onda de medo terrível em fins de tarde como esse. Engraçado como exatamente pelo fato de você sempre me fazer sentir em casa, você também me faz sentir exilada de tudo que é mais importante para mim, quando eu me lembro de como as coisas são na realidade.  Em momentos como esse, músicas tristes são como furacões, que me sugam, para cada vez mais perto, ou como uma queda em um vale profundo, porque elas me fazem sentir que nada mais importa além do sentimento que tenho ao ouvi-las. Dessa vez o sentimento é de que, na verdade, não tem ninguém me vendo exatamente da maneira como eu gostaria de ser vista. Mas eu estou no meio do Ensino Médio, é claro… então como vencer a tendência de permanecer envolta de tão grande anseio, para enfrentar o cotidiano? Talvez antes eu dissesse que não tem como f...

A melhor versão de mim

Eu estava ouvindo, não pela primeira vez, um podcast de uma renomadíssima psicóloga, enquanto lavava a louça. Não me lembro exatamente qual era o tema do episódio em questão, mas ela estava falando e dando dicas sobre como criar hábitos, ser mais disciplinado, e coisas do tipo, e eu estava com a mesma sensação que tenho em algumas das vezes que a ouço. Senti que queria ser mais como ela, que é muito boa em tudo que se propõe a fazer, mas também me senti mal, até meio perversa, por saber que na verdade não ia fazer tudo aquilo que ela estava me dizendo para fazer, porque achava que ia exigir mudanças demais, ser difícil demais. Foi ruim, de certa forma confortável, mas ruim, porque eu sabia, no fundo, que eu não deveria desistir de ser "a melhor versão de mim", porque afinal ela era a única que teria o direito de respirar em paz em algum momento, se sentir suficiente, em algum momento. Isso me fez achar que o resto do dia seria triste e melancólico, quando o episódio acabou e ...

A vida em tom metálico

Às vezes vejo outras pessoas gritando suas dores e tenho vontade de gritar também. Não as dores de sempre, gritar uma mais abrangente, a dor pelo fim das dores nunca chegar.  Nesses momentos sinto toda a minha raiva, a potência que existe em mim, explodir, e escorrer pela parede, como tinta. Tinta colorida, com todos os tons de toda a minha vida.  Mas que agora escorrem metálicos, frios, pois são apenas mais tinta, em mais uma parede. 

Alguém como você

Passando pela porta da escola, sigo na direção do caminho para casa, desviando de dezenas de pessoas imersas em seus próprios grupos. De todos os rostos conhecidos, apenas um sempre me cumprimenta. O dia está ensolarado, mas isso não me anima. Virando as esquinas, me sinto andando em linha reta, e o que me ameaça não são os outros soldados, mas as bombas que atravessam esse campo minado, que termina… bem, num abismo. Ou pelo menos é o que ele parece ser, há 2 anos de distância. Será que eu sou mesmo esquisita? Será que eu deveria começar a lavar o rosto mais frequentemente, para diminuir as espinhas? Ou acordar mais cedo, para arrumar o cabelo? Ou talvez os dois? “Ahh, eu só queria que você estivesse aqui”, é o que eu penso. Mas para isso você teria que existir, Grande Amor da Minha Vida / Ator Pelo Qual Tenho um Crush.  Então chego naquela parte do caminho em que já não vejo os outros e somos só eu e a minha vontade de você, andando debaixo de algumas árvores. Começo a lembrar do ...

Sobre a falta que a gente sente

Falta. Faltam as coisas que eu devia ter feito, que eu devia estar fazendo, e que eu devia fazer no futuro. Falta informação na cabeça, coisa no currículo, falta até currículo. Falta a concretização de tudo aquilo que eu quero tanto ser. Falta escrever aquele livro genial, falta a certeza de que o que eu escrevo é bom o suficiente. Quando tem ócio, falta sacrifício, quando tem só privação, falta motivo para continuar, e mesmo quando eu esqueço, o mundo continua  desigual e horrível. Tem que ler mais, malhar mais, estudar mais, pesquisar mais, é sempre mais e mais. Falta a presença daquela pessoa, que é real ou não. E a vida só vai ser vivida, o mundo só vai girar, quando ela estiver aqui. Ou parecer estar aqui.  Falta qualilidade para esse texto de uma autora tão inexperiente, falta dar mais exemplos, de mais áreas, falta englobar tudo, entender tudo, fazer tudo. Falta.  E eu sinto muito se faltou falar da sua falta. Mas acaba que a ausência disso dá sentido para o seu co...

Se não deu tudo certo, é porque ainda não chegou no final

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  Olá, caro leitor.  Parece que estou estranhando a escrita, como estranho a mim mesma. É como se eu escrevesse coisas lindas, textos em que eu listo exatamente o que tenho que fazer e que me fazem perceber que já sei qual caminho seguir, mas eu faço isso toda vez, e em todas elas eu fui escrever justamente porque estava angustiada por não cumprir nada do que prometi fazer.  Eu estranho o que escrevo, porque não escrevo sobre a realidade, sendo que é isso o que eu gosto de fazer. Mas eu não posso em sã consciência me deixar escrever, e nem, principalmente, pensar que as coisas devem permanecer como estão.  Evidência da minha carreira longeva de escritora Eu sou uma adolescente de quase 16 anos, que está indo para o 2º ano do Ensino Médio. Em outras palavras, uma criatura sendo arrastada para uma espécie de abismo, e tudo o que faço é olhar para trás, para os anos da minha vida em que tinha amigos, tirava notas boas, me divertia e chorava, sem pensar no depois, ou pa...